Marquesa Luisa Casati: uma trendsetter transgressora

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“Quero ser uma obra de arte vivente”, foram as palavras de Luisa Casati Stampa, que parecem ter-se concretizado no tempo. Ao menos é o que fica claro após a visita deliciosa que fiz à a mostra La Divina Marchesa – Arte e vita di Luisa Casati dalla Belle Époque agli Anni folli, em cartaz até 8 de março de 2015 emVeneza. Divina Marchesa, aliás,
foi a definição dada por seu famoso amante, o legendário dandy italiano Gabriele D’Annunzio.

Os escândalos de Madonna na década de 1980 ou os atuais de Lady Gaga ou Miley Cyrus não são nada se compararmos com a vida polêmica da Marchesa Luisa Casati, no inicio do século passado. Batizada como Luisa Amman, foi uma aristocrata de Milão que nasceu milionária em 1881 e, como quase toda história que envolve fama e transgressão, morreu pobre em 1957. Desde cedo, ela quis ser um mix de Sarah Bernhardt e Ludwig II di Baviera: alta e um pouco anoréxica, tinha traços fortes e olhos incandescentes destacados com pupilas dilatadas pela tintura de beladona. Portava cabelos ruivos em uma penteado selvagem. O conjunto provocava um grande frisson por onde passava. Foi a primeira mulher da época moderna a destacar seus olhos com kohl e que tingiu os cabelos para parecer que vestia uma coroa de chamas. Contextualizem isso em 1900 e, voilà, imaginem o escândalo.

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DIVINA MARCHESA LANÇOU TENDÊNCIAS

Ela adorava viver no PalazzoVenier dei Leoni, que atualmente é o Museo Peggy Guggenheim (uma intensa admiradora de Luisa) e, à sua época, instalou ali um exotismo feito de flora e fauna raríssimas, tais como o guepardo com o qual passeava à noite porVeneza ou uma serpente enorme que enrolava no pescoço para lembrar um colar natural.Tudo rigorosamente enquadrado por um manteaux em veludo ou seda transparente, com nenhuma lingerie à vista.

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Ela adorava um Carnaval veneziano, ao qual participava sempre portando as mais bizarras
fantasias, auxiliada por Leon Bakst, costumista do magnifico Ballet Russes, muito em voga na época (lembremos que Coco Chanel também foi apaixonada por ele). Seu primeiro famoso baile vestida por Bakst fez grande sucesso. O que dizer também da longa túnica do espetáculo Le Dieu Bleu,vestida com saltos altíssimos, no qual vem retratada junto ao maestro Mariano Fortuny, cujas célebres túnicas plissé delphos encontraram o sucesso no mesmo ano.

A marquesa não foi somente bizzarra e excessiva (quem acha hoje o nude look ou o couro de píton inadequados agradeça a ela), espetacular e transformista, megalômana, transformista e narcisista, mas também uma grande colecionista: ela antecipou com suas performances a dimensão estética do que hoje chamamos body art.

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É uma “anima” que o tempo felizmente não apagou e que o mundo criativo sempre admirou e manteve relações. Como vi na mostra, ela continua a inspirar tantos artistas, estilistas e designers, como Tilda Swinton pela lente de Peter  indbergh e Paolo Roversi, aos artistas contemporâneos Ane-Karin Furunes, Filippo di Sambuy, Marco Agostineli e FrancescoVezoli que inclusive realizaram obras novas para a ocasião.

SEU OBJETIVO ERA CHOCAR,DIZIA UM AMIGO

Amante de personagens singulares, que fazia questão de interpretar, antecipou em décadas a liberação feminista, sendo tanto Rainha da Noite como Cèsare Borgia, mas também um doce Arlecchino na famosa noite do Ballo Longhi, pelo qual obteve através de seus meios ilícitos o espaço da Piazza San Marco: foi uma noite dedicada ao tango, que era um baile proibido na Itália, por ordem papal. Setor da sociedade, aliás, que não a via com bons olhos, visto que ela se dedicava ao ocultismo, sendo amante das magias, amiga e confidente do “mago” da época, Aleister Crowley (o famoso inventor do Thoth Tarot, que é muito futurista) que frequentava com Robert de Montesquiou. Aliás, deste adquiriu o Palais Rose em Paris, que rebatizou de Palais du Rêve, onde organizou o seu último baile vestida como o esotérico e alquimista conde de Cagliostro.

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Foi uma mulher anos-luz à frente do seu tempo e que pagou um preço bem caro pela sua expressão de liberdade. Mas que, pelo que parece, também aproveitou cada segundo de divertimento que obtinha pelo choque cultural que causava. Como bem retratou seu confidente Jean Cocteau: “Ela soube criar um ‘eu’ ao extremo. Que não se tratava de gostar ou não gostar. Ela queria é chocar.”

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PARA SABER MAIS

● Na literatura: Jack Kerouac dedicou-lhe The 74th Chorus, em 1910 o romance de Gabriele d’Annunzio Forse che sì
forse che no a coloca como protagonista e recentemente saiu a bibliografia Infinite Variety, de Scot D. Ryersson e Michael Orlando Yaccarino

● No cinema: Vivien Leigh (à esquerda) a representou em Ship of Fools, aqui conhecido como La Contessa, de
1965, e Ingrid Bergman a representou em A Matter of Time, de 1976 que contou também com Liza Minnelli.

 

*Fah Maioli pesquisa, analisa e compartilha as tendências comportamentais e projetuais que influenciam o desenvolvimento de produtos e serviços no Design, na Moda e na Gastronomia. Realiza o compartilhamento (por meio de e-books, livros, reports, artigos, palestras e cursos) em Milão e no Brasil. Possui um Master in Gestione del Processo Creativo (IULM Milano), é especializada em Trendsetting (IED Milano) e em Design de Produto (UCS CxSul), e há mais de 15 anos atua nos mercados italiano, brasileiro e americano. Recentemente participou como palestrante no TEDx, no Mobile For Future, e foi a única brasileira convidada a falar no WorkstyleTalking na Hermann Miller em Milão. Tem mais de cinco e-books publicados e o livro “Manual de Coolhunting”.

 

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