Opinião: o melhor (e o pior) da Mostra Black, de São Paulo

Divulgação

Encerrada no último domingo, em São Paulo, a Mostra Black 2015 – entre êxitos e equívocos – propõe novidades e deixa algumas lições (e antilições) para os amantes do décor de alto padrão. Aqui, compartilho 20 impressões (pessoais e intransferíveis) acerca do evento e de seus bastidores.

ACERTOS

1. CEP
Volume mais exótico do complexo geométrico que Niemeyer traçou para o Parque do Ibirapuera na primeira metade da década de 1950, a Oca é um dos prédios mais emblemáticos da arquitetura modernista do país e, por si só, já é um acontecimento. Qualquer evento que se relacione com o invólucro arquitetônico com pose de disco voador, sobretudo abordando a casa brasileira, é digno de (boa) nota. Tarefa hercúlea – não à toa, costumo comparar Raquel Silveira, persona por trás do evento, a uma super-heroína da Marvel Comics – da casca ao conteúdo.

FOTO 1 Debora Aguiar  -  Credito Bruno Conti

2. Grande elenco
Colocar nomes estelares da nossa arquitetura (Roberto Migotto, João Armentano e Debora Aguiar – foto acima) ao lado de talentos ascendentes de outras praças (o catarinense Marcelo Salum, a mineira Juliana Vasconcellos, os baianos Arthur Athayde e Marcelo Borges) exercita o caráter novidadeiro que toda mostra deveria ter. Ponto para a curadoria dos sempre antenados Raquel Silveira e Sergio Zobaran (que se encarregou da tarefa na primeira fase do evento). Presenças inusitadas – e muito bem-vindas – como a de Ricardo Bello Dias (foto abaixo), arquiteto bamba há anos radicado na Itália, e de Maneco Quinderé (responsável pela luminotécnica da mostra), reforçam o time estrelado.

FOTO 2 - ricardo bello dias - FOTO BRUNO CONTI

3. Liberté, egalité & fraternité
A liberdade criativa que os organizadores oferecem aos participantes e o tamanho quase linear (ou com poucas variações de metragem) dos espaços. Isso só faz bem para a estima do elenco e coloca todos os players em pé de igualdade no tabuleiro.

4. Cada um no seu quadrado
A ideia de encapsular os ambientes em caixas que não interferem no jogo de curvas sensuais do pavilhão expositivo que sedia a mostra foi bastante funcional e criou panoramas homogêneos de apresentação (coisa rara em mostras do gênero). Pena que, exceto por João Armentano, que traçou paredes curvas para seu box, imprimindo um visual mais sinuoso, os profissionais tenham ousado pouco na estrutura interna.

5. Tenório and Suíte Rocks
Duas aulas de high-décor contemporâneo: o ambiente de Osvaldo Tenório (foto abaixo), que dá uma lição de originalidade, estilo e assinatura autoral, sem medo de ser Black, no sentido literal do verbete (o espaço abusa da cor preta e faz seleção caprichada de design). Menção honrosa para a trilha visual rock and roll que inclui Fernanda Montenegro em pose punk pelas lentes de Dadá Cardoso e uma cápsula de vidro que trata a pilastra de Niemeyer como a obra de arte que é. A jovem trinca do Suíte Arquitetos, composta por Filipe Troncon, Daniela Frugiuele e Carolina Mauro, surpreendeu pelo espaço absolutamente classudão de um jeito fresh que só eles sabem fazer, com peças de excelente design traçadas pelos próprios.

FOTO 3 - osvaldo tenório BRUNO CONTI

6. Torres gêmeas
Guilherme Torres (foto abaixo) e sua celebração aos designers gringos que fincaram raízes por aqui e ajudaram a construir a identidade do móvel brasileiro, de Lina Bo Bardi a Jean Gillon (a tapeçaria do romeno radicado no Brasil é uma das peças mais raras da mostra!). O papel de parede azul da Orlean, tridimensional, é um dos acabamentos mais batutas da temporada. Vizinhos ao cubo de Torres, os boxes empilhados de Debora Aguiar, que formavam pé direito gigante, foram explorados com sabedoria, elegância e estilo pela arquiteta, que arrasou no espaço e no seu belíssimo (e altíssimo) biombo “neo-déco”, de bronze e espelhos.

foto4 - gui gomes GUILHERME TORRES

7. La vie en rose é o máximo
O conjunto cor-de-rosa de estofados do casal italiano Scarpa, resgatado por Max Crovato, e sua proposta de um living “planta baixa”, tinha um pé nos anos 70 e outro no futuro. Efeito refrescante como uma taça de vinho rosé com gelo, que revê as proporções da casa convencional. A seleção de arte, com destaque para Emanuel Araújo e Waltércio Caldas, também merece respeito.

8. Pra que chorar?
Tive acesso ao projeto original da arquiteta Camila Klein e posso dizer que o melhor de seu espaço era uma mesa imensa de mármore em duas placas finíssimas, desenhadas por ela (adoro quando o arquiteto converte sua obra para a escala do design), com suspiro geométrico em bico, fazendo uma bandeirinha tipo Volpi. A cena se desenvolveu a partir daquela peça caríssima. Dada a complexidade da execução, a mesa chegou atrasada e, horas antes da abertura, se espatifou em mil cacos. Camila, ao invés de fazer a diva histérica (como outras estrelas fizeram por contratempos bem menores), tratou logo de substituir a peça por um modelo de linha, em laca. Sem chororô e com um amadurecimento notável.

9. Casa Vogue arrasou
Foi tacada de mestre a ação de marketing da revista com o Instagram
(@casavoguebrasil) ao simular uma capa da edição para os convidados posarem e ainda sortear os produtos de design que compõem a cena, ao final da brincadeira. Criativo, atual e de grande impacto junto ao público.

10. Sem crise
Ninguém aguenta mais o verbete “crise”, e o mercado tem se retraído muito sob esse pretexto. E, tal e qual na Casa Cor, é extremamente louvável – e estimulante – para o circuito do décor o apoio de marcas como Dell Anno e Deca, que fazem a roda girar e incentivam os arquitetos a apresentarem coisas lindas para nós. Mérito deles e da credibilidade dos competentes organizadores da Black.
Que venham outras edições!

 

ERROS

1. Tropa de elite
Cem reais para visitar uma mostra em pleno Parque do Ibirapuera? Por mais sofisticada que seja a Black, vivemos um momento no Brasil de rara visibilidade do design e é hora de dar um impulso para despertar o interesse das pessoas pelo décor. Aproveitar uma área tão popular, com uma audiência tão sui generis, seria um avanço para impulsionar o segmento no Brasil. Vide o exemplo de museus instalados em prédios vizinhos, como o Afro Brasil ou o MAC, cuja entrada é franca, ou os próprios bancos de Hugo França espalhados pelo parque.

2. Ué, já acabou?
Só 14 espaços? Totalmente desproporcional ao preço que o visitante paga para ver um panorama do décor brasileiro. Para efeitos de comparação, a Casa Cor cobra R$ 38 para o espectador ver 74 propostas. Por mais elitizado e pocket que seja o formato da Black, custo-benefício é uma relação elementar. Dezoito dias em cartaz também é muito pouco tempo para tanto investimento de marcas, patrocinadores e profissionais.

3. Quarto do pânico
Por que será que nenhum dos 14 profissionais abriu a sua caixinha para o mundo? Ninguém fez uma claraboia sequer e o discurso ficou excessivamente cenográfico, quase claustrofóbico.

4. On the wall
O conceito e o aspecto quase museográfico abordado em espaços como o de Osvaldo Tenório e Guilherme Torres deveria ser melhor explorado como discurso de todas as caixas, considerando o caráter do Pavilhão. Quase todos os profissionais tinham boas histórias para contar e a informação visual sempre fica mais interessante quando a inspiração e os pontos altos da arte e do mobiliário estão escritos na parede. Uma turbinada no conteúdo e na comunicação viria a calhar.

5. Fazendo cena

Quem viu o projeto expográfico original de Arthur Casas que seria fio condutor desta edição ficou frustradíssimo com o abismo entre expectativa e realidade. Sabe-se lá porque o arquiteto e a mostra desfizeram laços (a gente até entende a complexidade por trás das relações). Mas o equívoco da substituição ficou visível. Talentoso e original, Felipe Protti é um grande criador dessa geração, mas a impressão é que ele foi jogado numa arena com leões – e sem verba – e ficou impossível criar uma ponte entre dois universos tão distintos: o que se via das caixas para dentro e o que se via das caixas para fora. O que poderia ser um retrato da diversidade virou discrepância estética. Seu mobiliário desconstruído e a cenografia não fecham com o conceito do evento (funcionaria numa feira como a MADE, não numa mostra de high décor). Em contrapartida, os contêineres que ambientou na órbita da Oca, com funções múltiplas como as lojinhas, reuniram forma, função e efeito visual com eficiência.

6. A volta dos que não foram
Existem profissionais tão “Black” que já podem ser considerados “platinum”, como Jorge Elias, Sig Bergamin, João Mansur, Esther Giobbi, Ari Lyra. Não dá para falar em high décor excluindo os clássicos. Também fez falta a aposta em jovens designers brasileiros com trabalho consistente e visibilidade internacional.

7. Que peninha
Não dá para apoiar, de jeito nenhum, qualquer tipo de taxidermia (foto abaixo). Acho mórbido e, por mais globalizados que sejamos, essa cultura europeia da caça não tem nada a ver com a estética urbana e com a casa brasileira. Diferentemente da galera do Peta, não jogo tinta vermelha em quem usa cabeças vintage, peças que remetem a uma época de natureza farta onde a ação predatória ainda parecia não causar tantos danos, por exemplo. Mas agora não dá para apoiar quem manda matar e empalhar um bichinho sob encomenda para compor o décor.

FOTO 5 pavao

8. O deserto que atravessei
Uma das tendências da arquitetura de interiores hoje são os móveis híbridos com suportes de plantas, os jardins verticais, os exteriores invadindo a casa, os arranjos de flores vivos e vibrantes, o paisagismo. Boa parte dos ambientes estavam mais áridos do que o Saara neste aspecto. Reflexo da falta d’água em São Paulo? Carolina Maluhy (abaixo) teve boas intenções com seu jardim no banheiro, mas aquelas plantas não sobreviveriam sem uma abertura no teto. Detalhe: cadê o ar-condicionado da Oca? Leques improvisados fizeram moda.

FOTO 6 - carolina mostra-black-06 - crédito Gui Gomes
9. Barrados no Baile
Uma das maiores reclamações nos bastidores foi o cancelamento da festa de abertura, auê fundamental para pulverização do evento e relacionamento entre todas as partes. Panes et circus!

10. Feed black
A responsabilidade de quem apresenta um trabalho numa mostra deveria levar em conta soluções novidadeiras para a casa contemporânea. A maioria dos profissionais não ousa ao propor novas formas de viver (e perceber) a casa e ficam martelando em configurações clássicas (sofá + poltronas sobre tapete + arte manjada na parede). Pé no chão é importante, mas, feito desfile de moda, mostra de décor pede conceito, criatividade, apostas em novas matérias-primas e, principalmente, emoção.

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  • Mauricio

    Ótima leitura da mostra. Só faltou falar sobre o espaço da Triplex Arquitetura. A reforma dos banheiros da Oca fez um interessante link entre a contemporaneidade e a referência histórica do icônico edifício do Niemeyer. Além de tudo, os banheiros foram reformados para a mostra, e depois entregues à cidade de São Paulo. Quer maior exemplo de sustentabilidade? Ponto para a Triplex.

Eleone Prestes

Várias faces da Casa Cor em São Paulo

Fotos: Eduardo Liotti

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