Com a reinauguração do Musée Picasso Paris, o artista retorna a seu pedestal na cidade francesa

Reportagem do The New York Times News Service

“Dê-me um museu e eu vou preenchê-lo”.
A frase acima dita por Pablo Picasso agora virou realidade. O Museu Picasso, que fechou para expansão em 2009, finalmente reabriu, com o dobro do tamanho anterior, mas com um atraso de anos e envolto em um mar de intrigas.

O projeto de renovação foi turbulento: o trabalho na mansão barroca que abriga o museu, a maior coleção de Picasso do mundo, se arrastou escandalosamente; os orçamentos inflaram. Houve demissões (Anne Baldassari, diretora do museu, perdeu seu cargo) e pitis estridentes.

Inaugurado em 1985, o museu é uma atração popular. Não importa quantas grandes obras individuais de Picasso existam em Londres, Madrid ou Nova York, em seu museu, Paris tem o próprio artista, suas primeiras e últimas fases, maiores ou menores. Não é de espantar que multidões façam filas nas calçadas.

Uma vez lá dentro, o que se ganha? Deslumbramento – e frustração. No lado positivo, há mais de 5 mil peças do artista, juntamente com uma seleção preciosa de 150 obras de artistas que admirava: Chardin, Degas, Cézanne, Gauguin, Braque, Miró, Matisse e Henri Rousseau.

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Em abrangência, textura e espírito, o acervo não tem comparação. É diferente da grande seleção de Picassos de “Cubismo: A Coleção de Leonard A. Lauder”, agora no Museu Metropolitano de Arte, em Nova York, que tem obras-primas clássicas. O que está no Museu Picasso em Paris é uma coleção sublime que pode ser vista como uma aula. O objetivo não é construir um monumento ao artista ou a um estilo, e sim contar a história complexa de como a arte é feita por uma pessoa de energia versátil.

Picasso colecionou sua própria obra ao longo da vida, mantendo exemplares de sua arte que não podia ou não queria abrir mão: trabalhos da juventude, anotações pictóricas, obras favoritas terminadas e lembranças de amores passados. Ele deixou essa acumulação para seus familiares quando morreu em 1973.

A arquitetura do museu é considerada um problema. A casa do século 17 que o abriga no histórico bairro de Marais, com seu jardim, pátio e o hall de dois andares, nunca foi ideal para exibir arte.

O interior é irregular, com espaços diminutos, becos sem saída e conexões ilógicas. A reforma de 1980 revestiu tudo com paredes brancas sem dar sentido de unidade. O novo design, do arquitecto Jean-François Bodin, é uma versão ampliada do plano antigo. São quatro andares de galerias, incluindo um porão abobadado e um sótão em estilo de loft, com vigas expostas e vista para os telhados da vizinhança, com difícil sequência de visitação.

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ORGANIZAÇÃO DO ACERVO NO MUSEU NÃO TEVE CRITÉRIOS DIVULGADOS

A impressão de descontinuidade é agravada pelo arranjo idiossincrático de arte concebido por Anne Baldassari, que permaneceu no cargo apenas o tempo suficiente para organizar a inauguração. A instalação principal começa com pinturas do adolescente Picasso na Espanha, onde nasceu, em 1881, e outros de sua primeira estada em Paris. A mudança de um estilo a outro é dramática. Mas a linha do tempo vai ficando confusa.

A obra mais antiga da coleção, Petite fille aux pieds nus, de 1895, aparece depois junto com uma escultura quase abstrata de 1930. Em outro lugar, a combinação do autorretrato “azul” de 1901 com um esboço de um rosto redondo de 1972 é uma forma de comparação e contraste, mas colocá-las junto com a obra cubista Homme à la moustache, de 1914, e uma cabeça de bronze de 1958 não faz sentido.

A ex-diretora do museu Anne nunca disse nada sobre suas escolhas. Não há informação. A ideia não declarada – uma moda entre curadores no momento – é que a arte fala por si só, ponto final. Mas não é bem assim. A arte mudou: o público mudou, se ampliou. Precisa de ajuda e merece a opção de utilizá-la, ou não, pois, hoje em dia, o conhecimento compartilhado não é óbvio.

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