Casas pré-fabricadas para colecionar

Miami Design Week - Casas pré-fabricadas para colecionar - NYT

Penelope Green/New York Times

Sob as tendas açoitadas pela chuva da Art Basel Miami Beach, em dezembro, havia ursos feitos de penas, uma pintura feita com sapatos e cadarços e um briga envolvendo um estilete que não era uma performance. No meio de tudo isso, as maiores curiosidades foram dois protótipos arquitetônicos: o pavilhão/refeitório de alumínio e aço projetado por Zaha Hadid com Patrik Schumacher, que parecia brotar como um tipo de flor marciana sobre um conjunto de mesa e cadeiras de madeira moldada, e uma caixa branca de 32,5 metros quadrados revestida de lâminas de madeira compensada projetada por Gluckman Tang como um pavilhão de arte.

Robbie Antonio levou casas pré-fabricadas à Art Basel Miami Beach

Robbie Antonio

As estruturas e outros “itens arquitetônicos de coleção customizados”, como o desenvolvedor Robbie Antonio chama os projetos, estavam à venda através de uma nova empresa, a Revolution Precrafted Properties, que pretende entregar edições limitadas de pequenas casas e pavilhões projetados por grandes arquitetos alguns meses depois da compra.

Daniel Libeskind, Marcel Wanders, Tom Dixon e outros ofereceram projetos, incluindo a Marmol Radziner, empresa de arquitetura modernista baseada na Califórnia que construiu casas para Tom Ford e integrantes da banda Red Hot Chili Peppers.

O projeto de Antonio usa a ideia da casa pré-fabricada – habitação com projeto bom, produzida em massa, que é econômica por causa da escala – e a vira de cabeça para baixo, com um resultado tão visionário quanto confuso, dependendo do ponto de vista. (Ele descreveu o produto não como algo “pré-fabricado”, mas “precrafted”, palavra que evoca um produto feito à mão, como um uísque artesanal.)

É também uma combinação de outros temas contraditórios: o apetite de ricos colecionadores globais de acumular produtos luxuosos de marca, como móveis com edição limitada, arte contemporânea e agora, talvez, a arquitetura de marca, incluindo o movimento da casa minúscula, relacionado à vida mais simples e aos novos materiais que abordam questões de sustentabilidade.

Os pavilhões vão custar de US$35 até mais de US$450 mil; as casas, de US$250 até mais de US$450 mil, preços que incluem sistemas de HVAC (sigla em inglês de aquecimento, ventilação e ar-condicionado), cozinhas e banheiros, mas não a taxa de entrega. A única instrução que Antonio deu a seus arquitetos foi limitar a estrutura entre 50 e 250 metros quadrados com componentes que coubessem em um contêiner para transporte.

Ele não contatou só arquitetos. (Antonio disse ter fechado negócio com cerca de 40 profissionais, incluindo alguns estilistas). O artista plástico David Salle se uniu a Aldo Andreoli, diretor da firma de arquitetura AA Studio, para criar uma série de módulos de 3,7 x 7,3 metros com telhados inclinados para painéis solares, sistema de coleta de água de chuva e painéis de metálicos de parede entalhados com o trabalho do primeiro.

Kenny Scharf também recebeu um telefonema. “Mas não consegui detalhes ou respostas objetivas sobre o projeto, então desisti”, disse ele.

“Nossa resposta ao fato de o projeto ser tão vago foi projetar dentro dessa limitação”, disse Dixon, desenhista industrial britânico cujos módulos de 11,1 metros quadrados foram construídos com quadros de alumínio extrudado que se encaixam como joguinhos de montar, com painéis de diversos materiais.

Os projetos da Revolution são tão idiossincráticos e tão absurdamente diferentes um do outro que causam um rebuliço mental só de imaginar sua produção. (Antonio disse que queria que o negócio “reconfigurasse as tecnologias”, além de informar que os componentes seriam produzidos por fábricas na Ásia, Europa e Estados Unidos.)

Libeskind criou um pavilhão em forma de ameba, que ele espera que seja feito por uma impressora 3D com algum tipo de material composto. O SelgasCano, escritório de arquitetura espanhol, produziu um tubo de vidro e metal na forma de uma barracão quonset com asas e pés. O pavilhão de chá de Ron Arad também é um lindo objeto alado, lembrando um pouco a Sydney Opera House, feito de madeira revestida de polímero. O de Zaha Hadid é uma espécie de flor interestelar.

Antonio, um filipino de 38 anos com predileção por arte contemporânea, marcas de luxo e arquitetura sofisticada, aparentemente possui contatos e recursos para produzir arquitetura em qualquer escala.

Em seu país, criou bairros inteiros, em colaboração com Paris Hilton, Donald Trump, Philippe Starck e casas de moda como Missoni e Versace, construindo uma armada de projetos de vidro e aço “hiperluxuosos”, como ele mesmo diz, sendo que o mais ambicioso é o Century Spire, de 60 andares, um edifício facetado projetado por Libeskind (com interiores da Casa Armani), que terá três divisões assimétricas no topo quando for concluído, em 2018. Segundo ele, investiu também em abrigos desenhados por Shigeru Ban.

“Sou obcecado por arquitetura e design”, disse Antonio. Autodidata na área (ele se formou em Economia pela Northwestern e fez MBA em Stanford), Antonio diz com orgulho que nunca teve um consultor de arte.

“Há dois sonhos integrados na ideia da casa pré-fabricada”, disse Karrie Jacobs, editora da revista Dwell, que fez renascer as palavras design e pré-fabricado nos Estados Unidos quando foi lançada, em 2000.

“O primeiro é a produção em massa de casas de qualidade para todos – o sonho da Bauhaus; o segundo é transformar a arquitetura de processo ‘de alta costura’ para um que seja ‘prêt-à-porter'”.

“É um sonho lindo, e não o culpo por isso, mas ele tem um monte de kits diferentes. Não parece que algum desses projetos tenha qualquer sobreposição, e isso é meio complicado.”

A princípio, a Revolution Precrafted é basicamente uma coleção (com algumas exceções) de loucuras sofisticadas, extravagâncias arquitetônicas que poderiam existir em uma propriedade. Dá até para imaginar certas pessoas colecionando uma de cada.

(Créditos de fotos: Ryan Stone,The New York Times (ambiente) e Ike Edeani, The New York Times (Robbie Antonio)

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