Coluna Allex Colontonio: Casa Cor São Paulo

Foto Eleone Prestes
Foto Eleone Prestes

Curta-metragens

Contrariando a máxima do quanto mais melhor, Casa Cor São Paulo, um dos principais eventos do décor na América Latina, completa 30 anos, encolhe, aparece, e exibe maturidade com boa curadoria e pés no chão.

Mãe de 20 franquias que hoje atravessam o Atlântico para chegar a Miami, a mostra paulistana que já ocupou casarões tombados e hospitais desativados, e que contabilizou, em uma única edição, quase 200 espaços (cruzes!), parece bem mais à vontade no endereço que vem sediando a expo nos últimos anos, o Jockey Club. Mas, desta vez, em outra ala, num côté quase secreto: o ambulatório projetado na década de 1940 pelo arquiteto francês Henri Sajous (1897-1975), em estilo art déco, deteriorado pelo tempo, inutilizado pelo descuido e finalmente revitalizado pela trupe sui generis que assina cada um dos 70 ambientes que recheiam o prédio e sua órbita (um número bem mais confortável para o visitante assimilar tendências e boas ideias).

Por lá, espaços mais compactos, uma necessidade real e imediata na era dos loopings do mercado imobiliário e do congestionamento habitacional, desafiam grandes nomes habituados com alqueires e mais alqueires de high décor, a comprimir suas ideias em uma escala mais compatível com as demandas em tempos de retração econômica.

E abre alas para jovens talentos – são cerca de 30 estreantes – que (re)pensam a casa brasileira diante de novos costumes e necessidades de uso. Como resultado, propostas interessantes que subvertem a ocupação original de cada espaço, acumulando funções, investindo em sustentabilidade, mobiliário híbrido e propondo novas formas de convivência com os pés no chão.
Ganha o visitante que busca boas ideias, dicas de acabamentos, soluções espaciais práticas e, quem sabe, um profissional para chamar de seu. Perde quem gosta de ousadia, espetáculo, conceito-magia, ambientes surreais que, tal e qual os desfiles da haute couture, vendem um sonho antes de vender um produto.

QUEM ARRASOU

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Eleone Prestes

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Outro favorito – meu e do público – (que inclusive acaba de abocanhar o prêmio Casa Claudia por seu espaço na edição 2015 do evento), Roberto Migotto não dá ponto sem nó –seu espaço é um dos maiores da mostra, com cerca de 200 metros quadrados. Celebrando 30 anos de carreira junto com a Casa Cor, elevou a marcenaria ao status de arte, recebendo os visitantes num hall encapsulado por ripas tridimensionais de madeira que se desencontram calculadamente em efeito cinético. A poltrona de Salvador Dalí é um dos pontos-altos e quase compensa a ausência de obras de arte mais relevantes.

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Eleone Prestes

Outro raro “longa-metragem” do evento, com 200 metros quadrados encapados por painéis de madeira e móveis camuflados, João Armentano é um dos highlights da mostra. E o arquiteto exibe seu poder de fogo ao trazer peças-ícones do design contemporâneo, de Campana a Ron Arad, bem ajambrados com obras de arte de pesos-pesados, como a escultura cinética de Raul Mourão.

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Fotos Casa Cor

Pela qualidade autoral, pelo maximalismo fluido, pelas misturas exóticas e bem equalizadas, costumo dizer que Osvaldo Tenório é o Sig Bergamin de sua geração. Neste projeto, o arquiteto brincou com o mood decadence-avec-elegance ao tomar partido de pisos e paredes semi-descascadas originais do ambulatório. Postou uma caixa de mármore no corredor de acesso e exibiu excelente mobiliário italiano contracenando com peças autorais. De quebra, também ousou ao mixar fotografias de Mario Cravo Neto e do jovem (e excelente) Yuri Seródio.

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Com a vanguarda, a autoria e o efeito plástico característicos de seu trabalho, o arquiteto paranaense Guilherme Torres antecipa um futuro muito próximo para a casa: uma nova relação com os sistemas de armazenamento/cocção dos alimentos. Na cozinha de estar Next Supper (próxima ceia), móveis híbridos como a mesa com display de indução que dispensa fogão, um show de tecnologia, design e arte boa salta aos olhos. A bola fora é a taxidermia na parede, coisa que, definitivamente, não faz a cabeça deste colunista.

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O paisagista paulista Alex Hanazaki, atualmente o melhor do mundo de acordo com a associação Americana ASLA, causou impacto com o paraíso volumétrico de sua Praça Eliane. Um oásis brut-tropicalista, cercado por uma dúzia de pés de Pau-Brasil, entre outras vegetações nativas. Original, modernérrimo e sem clichês, como ele.

OS EXCÊNTRICOS

Veteranos de guerra, amados por muitos e gongados por meia dúzia de mal-humorados, Brunete Fraccaroli, Léo Shehtman e Marcelo Faisal respondem pela ala mais polêmica – e divertida – desta edição. Faisal assina o miscigenado Jardim do Caboclo, que, segundo um vizinho arquiteto de língua ferina espalhou pelos bastidores, “ficou parecendo um presépio superdimensionado”. Shehtman fez um eficiente exercício art déco dentro de um vagão de trem desativado que ganhou grafitagem extravagante na parte externa. E Brunete homenageou sua cachorrinha Sissi (2000-2016) com uma mansão em miniatura encapsulada por uma redoma de vidro, em 13 metros quadrados. O goiano Leo Romano também causou sensação ao exibir sua porção Karim Rashid em seu espaço cor-de-rosa – moderno e transgressor. Gustavo Jansen mirou no mobiliário nacional com estética 1970, ao lado de peças francesas antigas. A luminária dourada gigante em formato de palmas não passou despercebida.

PRINCIPAIS TENDÊNCIAS

Em alta, cores neutras, tons pastel, nudes e lavados; o uso – e abuso – da marcenaria de padrão escandinavo, com madeira clarinha, seja como revestimento ou mobiliário; os painéis de Tensoflex, iluminados por LED (mas vale usar com moderação, para não transformar a casa em cenografia). E as formas curvas em poltronas e sofás, com aquela pegadinha hollywoodiana retrô; superfícies de bronze, latão, dourado e cromo; elementos naturebas, principalmente os minerais, como pedras e cristais.

MELHORES ACABAMENTOS

A madeira carbonizada das paredes do Hot Spot, elegante living dos talentosos catarinenses Moacir Schmitt Jr. e Salvio Moraes Jr; os azulejos de Patricia Anastassiadis, algo quase ordinário convertido em extraordinário pelas mãos da arquiteta; a treliça das caixas da unidade Shoji 04, da Yamagata Arquitetura, que comportam cozinha, quarto e banheiro. E o papel de parede Fornasetti,que Denise Barretto colou no teto do seu espaço; o dinâmico revestimento de mármore em patchwork escama-de-peixe do banheiro de Barbara Gomes e Giuliana Savioli; o compensado naval da galeria de Maicon Antoniolli.

QUEM ACERTOU

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A Yamagata Arquitetura, tocada por Paloma Yamagata, Bruno Rangel e Aldi Flosi, com sua unidade Shoji 04, que condensa excelente mobiliário em espaços compartimentados por um espetacular invólucro de treliças. Patricia Anastassiadis, com a chiqueria do Gabinete de Criação; a Casa Aqua de Rodrigo Mindlin Loeb e Caio Atílio Dotto, que conjuga o verbete sustentabilidade no presente perfeito. Fabio Morozini e a difícil arte de transformar um corredor em galeria, com obras de Tomie Ohtake a Arcangelo Ianelli ea biblioteca verde de Roberto Cimino e Nelson Amorim. David Bastos, um dos poucos a experimentar um “x-factor”, despejando areia em seu loft caiçara. Joana Requião no terraço gourmet que ganhou uma marquesa de Niemeyer; Paola Ribeiro com seu loft serrano e Andrea Teixeira e Fernanda Negrelli com seu relaxante Jardim Suspenso.

NOVOS TALENTOS

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A curadoria foi feliz na escolha dos enfants terribles desta edição. Da contemporaneidade cheia de bossa do baiano Nildo José (acima) à classe irrepreensível de Michel Safatle, quase 30 novos nomes deram
o ar de sua graça – e de seu traço – no circuito da feira.

MELHORES IDEIAS

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A jabuticabeira suspensa do espaço de Nildo José (mais acima), executada pela talentosa flower designer Aline Matsumoto; os terrários de vidro e madeira de Gilberto Cione e Olegário de Sá; a mesa de Corian que migra para churrasqueira de Guilherme Torres (página ao lado); as estantes feitas com escoras de laje da Yamagata Arquitetura;a adega de blocos (acima) da Triart Arquitetura  – aka (também conhecido como, neste caso dos profissionais) André Bacalov, Kika Mattos e Marcela Penteado).

QUEM ESCORREGOU

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A gente sempre espera muito dos mestres. E Ana Maria Vieira Santos e Esther Giobbi, que raramente desapontam, derraparam um pouquinho na curva. A primeira, não convenceu com mix pouco coerente de mobiliário e acesso interditado ao segundo pavimento. A segunda, não alcançou o mood artsy pretendido e acabou com cara de loja. Uma varanda que tinha tudo para dar certo com o irrepreensível mobiliário Dedon, acabou virando showroom. Datado, o Quarto do Bebê exalava naftalina e evocou Roman Polanski no clássico O Bebê de Rosemary. E, por falar em thrillers, o Living dos Amigos também tinha um cavalinho que parecia saído de filme de terror.

Fotos Divulgação

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FOTOS FLAVIA SCHWANTES, Divulgação

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