Lixo têxtil vira arte de luxo

Fotos: Simone Di Domenico, Setti Criadores, divulgação
Fotos: Simone Di Domenico, Setti Criadores, divulgação

Você já parou pra pensar na quantidade de resíduos que foi gerada para confeccionar a roupa que está usando agora? Não? Pois o volume de resíduos gerado pela indústria têxtil é um fato que vem preocupando, seja pela real conscientização das empresas, ou pelas multas que são geradas a partir do descarte irresponsável no meio ambiente, a partir da criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Para se ter uma ideia do tamanho do problema da indústria de confecção, que tem o segundo maior PIB na indústria de transformação no Brasil, são gerados por ano cerca de 175 mil toneladas de resíduos têxteis sólidos. Sendo que, deste volume, 90% são descartados de forma incorreta.

Entretanto, para alguns designers e artistas, o lixo têxtil não é encarado como um problema, e sim como uma oportunidade de mercado. É por meio do reaproveitamento de resíduos de diversas naturezas que eles planejam o desenvolvimento de novos produtos, e que podem se transformar até mesmo em objetos de arte.

É o caso dos trabalhos desenvolvidos pelas designers de moda e artistas plásticas Evelise e Anne Anicet no atelier Contextura, de Porto Alegre. Mãe e filha exploram um processo rico de colagem com o aproveitamento de resíduos da indústria têxtil, usando o conceito do upcycling, que prevê o aproveitamento de materiais sem valor comercial, como é o caso dos resíduos, transformando-os em produtos novos e também de caráter inovador.

Fotos: Simone Di Domenico, Setti Criadores, divulgação

Numa nova fase, que pende para o lado artístico, Anne ultrapassa o campo da moda e parte para a área da decoração, quando apresenta uma nova forma de fazer arte sustentável, explorando texturas ricas feitas a partir de excedentes têxteis, como fios de diferentes matérias-primas, retalhos de diferentes estruturas, como tecido plano, malha circular e retilínea, provenientes de tecelagens, malharias e confecções (ao lado). As composições, produzidas a partir do processo de colagem, têm como resultado novas visualidades de “rendas e pinturas matéricas”, expressivas no campo visual e tátil. As obras podem compor ambientes em suportes tradicionais como paredes, ou fazendo a interação entre ambientes entre vidros, como na imagem ao lado.

Dentro da mesma proposta de reaproveitamento de resíduos têxteis, mas com um processo de produção diferente do de Evelise e Anne, uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), desenvolveu uma série de luminárias (acima) feitas a partir de um processo de fusão de resíduos da poliamida, a terceira fibra sintética mais utilizada no Brasil, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Têxteis (ABIT).

Partindo do pressuposto que as fibras sintéticas podem ser derretidas antes de carbonizarem, os pesquisadores realizaram uma série de testes com retalhos de diferentes formatos, e verificaram que os resíduos de poliamida, quando derretidos, perdiam o formato fluido característico do tecido, se tornando um plástico resistente e flexível, com os retalhos totalmente aglutinados.

Fotos: Simone Di Domenico, Setti Criadores, divulgação

A partir da descoberta, a equipe então derreteu os retalhos e os moldou em superfícies tridimensionais, sendo explorados diferentes volumes e formas, além da possibilidade de criação de diferentes padrões de superfície em função da disposição das tiras ou pedaços de tecidos. Esse processo, desenvolvido dentro do ambiente acadêmico de pesquisa, com a equipe composta por Marcela Almeida Brasil, Suzana Barreto Martins e Cláudio Pereira de Sampaio foi recentemente patenteado pelo INPI, além de ter sido premiado com o terceiro lugar nacional do Concurso Nacional Desafio Lixo Luxo.

Iniciativas como estas trazem expectativas positivas para o campo do design brasileiro. Designers e artistas que desafiam a si mesmos, a materiais e a processos. Esse é o ponto, o diferencial. E o trabalho com materiais sem nenhum potencial aparente, como o caso dos resíduos, além de ser desafiador, traz uma grande contribuição ao meio ambiente. Esses artistas e designers estão transformando, literalmente, lixo em luxo.

Fotos: André Jacobi, Divulgação

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Foto: Impressió, Divulgação

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