A arquitetura na escala do design

Pai da cadeira Paulistano, peça projetada em 1956 que continua mais nova do que qualquer móvel produzido hoje, Paulo Mendes da Rocha, a maior lenda vida da arquitetura no país, conta a história do móvel brasileiro que se destaca no acervo do MoMa, de Nova York.

A cadeira Paulistano, um dos maiores clássicos do design contemporâneo mundial – membro ilustre do acervo do MoMa de Nova York desde os anos 1990 – está prestes a completar 60 anos e continua sendo um ícone da vanguarda.

Projetada em 1955 pela maior lenda viva do modernismo sulamericano, o capixaba Paulo Mendes da Rocha, 86 anos, a peça vem ganhando, nos últimos anos, versões alternativas de acabamentos que vão dos padrões multicoloridos da grife fashion italiana Missoni à capa de malha metálica que anda fazendo a cabeça dos decoradores descolados.

Mendes da Rocha, na sua prolífica carreira, ergueu prédios premiados que ajudaram a construir a identidade moderna brasileira, como o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo. Na seara do design, não chegou a desenhar meia dúzia de móveis, mas ainda assim conseguiu resumir o rigor de seu traço na cadeira que se tornou um clássico. É o melhor da arquitetura contemporânea made in Brasil convertida na escala do desenho industrial.

“A peça nasceu como uma encomenda. Um camarada de uma loja de decorações foi convocado para uma concorrência no Clube Paulistano. O cidadão pediu para eu desenhar uma peça especial para a área coberta, junto à piscina. Pensava no movimento das redes indígenas quando um amigo engenheiro comentou sobre um novo tipo de aço-mola da Villares, com vergalhões esbeltos que poderiam ser dobrados a frio”, conta ele, lembrando que para as primeiras experimentações atravessou a cidade na garupa de uma motocicleta para carregar os vergalhões, cada qual com uma bandeirinha nas pontas para evitar acidentes de trânsito.

“Daí veio a ideia toda do desenho, com um único ponto de solda. Continuei imaginando as redes e pensei num  engenho para abrigar um assento com uma tapeçaria ancestral, a rede de tucum, como se fosse vestir a peça. infelizmente, não houve entendimento com a FUNAI, mas a peça em couro e lona foi um êxito”.

Sentado num exemplar vintage de lona em seu escritório no prédio do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil), Doutor Paulo diz aprovar a versão “metaleira” produzida pela franco-brasileira Futon Company. “A proposta da Paulistano é ser realmente vestida por uma peça complementar, como se fosse uma roupa. O estilista Paco Rabanne fazia vestidos de metal muito interessantes por conta do caimento que o material tinha sobre a silhueta feminina. Acho que funcionou com a cadeira”, conclui.

Gênio indomável

Com fama de durão,Paulo Mendes da Rocha caminha com intimidade pelo centro da cidade,cumprimenta as
pessoas e observa,da rua e da sua janela, o que a cidade é e o que poderia ser.Um mirante que diz sobre a sua relação com o urbanismo e o rigor de seu compasso, consagrado por obras tão sui generis como a Pinacoteca do Estado e o estádio Serra Dourada,em Goiânia.Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie,em 1954,influenciado pela obra do arquiteto paranaense João BatistaVilanova Artigas
(1915-1985),ajudou a pulverizar uma categoria de modernismo mais rústico, revelando a sinceridade dos materiais
em estruturas racionais,vigas e estruturas aparentes,grandes vãos e espaços abertos em volumes horizontalizados que estão na raiz da chamada “Escola Paulista”.

Foi longe ao comprovar que um arquiteto,antes de tudo,é um humanista.Como professor da FAU na Universidade de São Paulo,nos anos 1960,Dr.Paulo discutia o papel social de seu negócio e acabou cassado pela ditadura e impedido de dar aulas.Em 1996,foi condecorado com o prêmio Pritzker (o Oscar da Arquitetura),e hoje continua firme em suas convicções,rabiscando poesia concreta da melhor qualidade,como o novo Cais das Artes,complexo cultural debruçado sobre a mesma Baía deVitória que contemplava da janela de sua casa quando garoto – e que desencadeou a sua paixão pelo ofício.

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