Obra de Sérgio J. Matos transpira brasilidade

Fotos Eleone Prestes
Fotos Eleone Prestes

É quase possível  sentir o cheiro, a temperatura e o som do ambiente natural que deu origem a cada uma das criações do designer Sérgio J. Matos, mato-grossense de 39 anos radicado na Paraíba há 15 anos. Seus produtos estavam expostos recentemente em duas feiras paulistanas, a Paralela Móvel e a Abup Show.

– A cultura é a matéria-prima essencial – já dizia ele, tempos atrás.

Afirmação levada “bem a sério” e reiterada hoje pelo designer ao contar que, antes de projetar uma peça, pensa de onde pode retirar o conceito local — seja de uma festa popular, uma dança típica ou um produto da feira de Campina Grande, cidade que escolheu como morada.

O processo começa pela obtenção de imagens. As fotos são feitas por Sérgio pelo Nordeste e Norte afora. Da flor que decora a roupa do caboclo dançarino de maracatu nasceu a linha de fruteiras Marakatu, por exemplo, formando uma de suas séries mais famosas.

Seu trabalho conquistou reconhecimento nacional e internacional, incluindo premiações por trabalho específico, o If Product Design Award, e pela obra do estúdio, Be Open (Itália). Em janeiro deste ano, na importante feira Maison et Objet, em Paris, participou do ciclo de conferências sobre a conexão entre design, artesanato e  identidade local no cenário mundial. Junto com ele, falaram também os designers Kenneth Cobonpue (Filipinas) e Gaël Manes (França).

– Eu já tinha um trabalho muito forte relacionado com a cultura no Nordeste, e o Sebrae do Amazonas viu e me convidou para fazer um trabalho por lá, a partir da identidade da região – conta o profissional formado em Design Industrial em Campina Grande. Hoje o curso mudou o nome apenas para Design e, segundo Sérgio, é um dos melhores do país.

Vizinhos no design

Sua vivência na região do Nordeste passa pelo trabalho com as comunidades de seis cidades com várias etnias. Em uma Paralela Gift passada, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, o trabalho de 12 mulheres produtoras dessas cooperativas conseguiu elevar a arrecadação dos R$ 2 mil que obtinham em média em feiras para R$ 80 mil em pedidos – apenas no primeiro dia. Hoje viraram empresárias e treinaram outras artesãs para desenvolverem o trabalho de criação principalmente de objetos, muitos focados na decoração de casas.

O designer acolheu também um trabalho internacional: na primeira edição da Paralela Móvel que Sérgio participou, já dividiu estande com o argentino de Buenos Aires Roberto Romero. Em comum, os dois têm o trabalho de design cheio de artesanato resolvido com muitas áreas vazadas, com resultado de graus de leveza diversos.

As luminárias de Romero são feitas em escala, mas as esculturas têm a sua formatação em arame criada à mão pelo artista, com uma delicadeza que impressiona. Após o primeiro contato com Sérgio, o argentino acabou indo para Campina Grande, conseguiu fornecedores na cidade e acabou ficando. Está há quatro anos no Brasil e trabalha no ateliê do mato-grossense.

Sérgio esta semana ruma mais uma vez para o Amazonas, onde vai interagir com as etnias Marubo e Matis, um encontro marcado com 45 indígenas para o município Apalaia do Norte, um dos mais pobres da região rica em natureza.

Por 12 dias Sérgio vai trabalhar para capacitar o grupo a produzir bolsas. Sempre a partir das suas histórias e com respeito às sua técnicas artesanais – como norteia seu trabalho.
Suas peças também ganham diferentes rumos, a partir de curadorias de exposições e mostras. No Rio de Janeiro, abriu na quinta-feira semana passada o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB) com trabalhos que têm o dedo de Sérgio J. Matos (o J.é para diferenciar o seu nome de outro designer).

SergioMatos2

A cadeira Cobra Coral, com acabamento em corda náutica,  é a peça de 2016 do estúdio de Sérgio, radicado em Campina Grande. Junto a ela, o banco Ipê, o Carambola (ao fundo) e a sequência de fruteiras Marakatu. Ao fundo do estande, no Museu Brasileiro da Escultura, as peças formatadas em arame são do designer argentino que também divide ateliê com   o brasileiro

André Klotz, Casa Vogue, Divulgação

Allex Colontonio: a arquitetura efêmera da Expo Revestir 2016

JaderAlmeida2016d

Para matar a curiosidade: um preview da nova coleção de Jader Almeida