Intervenções assinadas por escritórios de arquitetura humanizam o Mercado Público e valorizam a memória de Floripa

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Por Luciana de Moraes, especial

Há 56 anos o comerciante Aurino Manoel dos Santos vive a rotina do Mercado Público de Florianópolis. O trabalho para o jovem começava cedo, às 5 horas, com a movimentação das canoas descarregando os pescados frescos do dia, com as mercadorias que chegavam para abastecer os boxes, com os carros que transitavam pelo vão do prédio e com o som das ondas do mar batendo nas “costas” da edificação.

– Eram outros tempos. O mercado era o lugar frequentado pelos moradores em busca de diversos produtos, local de compras e também onde todos se encontravam – recorda Aurino, proprietário do tradicional açougue que leva seu nome.

A arte Naïf de Jair Martins resgata as memórias de infância de Evandro Gaspar, arquiteto que assina os painéis da ala Sul. Fotos: Felipe Carneiro/Agência RBS

A arte Naïf de Jair Martins resgata as memórias de infância de Evandro Gaspar,
arquiteto que assina os painéis da ala Sul. Fotos: Felipe Carneiro/Agência RBS

De lá para cá, a cidade mudou e o mercado também. Construída em frente à Alfândega, em 1898, para substituir o antigo comércio antigo, a edificação passou por duas etapas de construção: em 1899 – quando foi levantada a primeira ala, e 16 anos depois, época em que foi incluída a segunda ala, as torres, pontes e o vão central. O incêndio que destruiu uma delas, em 2005, não interrompeu o funcionamento do prédio. A história do mercado continua a receber novos capítulos, como a recente reforma promovida pelo poder público e as intervenções assinadas por escritórios de arquitetura, convidados pelo Casa & Cia Encontros e Espaços, evento promovido pelo Diário Catarinense.

– Todo o mercado que é referência em sua cidade, em algum momento passou por transformações significativas.  houve uma mudança de conceito para tornar o espaço mais atrativo, com a alteração do mix de atividades comerciais e a ampla obra de restauro. As intervenções realizadas pelo Casa & Cia respeitaram o patrimônio tombado e as mudanças proporcionadas pela Prefeitura, unindo o tradicional com o contemporâneo e destacando boxes e espaços institucionais com uma leitura não só administrativa, mas também que divulga a nossa cultura – defende o secretário municipal de Administração e responsável pela gerência do Mercado Público, Gustavo Miroski.

O Armazém das Rendas é um desse espaços de que fala Miroski. Projetado pelos arquitetos Juliana Pippi e Robson nascimento, o armazém é uma forma de reconhecer e valorizar o trabalho das rendeiras, que fazem parte da história cultural da cidade. No lugar, Marialba Maria de Oliveira, 63 anos, tece toda a semana e expõe seus trabalhos, resultado do que aprendeu ainda criança com a avó. Os tecidos coloridos de chita alegram a sala e dão destaque às rendas produzidas ali mesmo. Logo ao lado, na Ala Norte, está o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), de autoria do escritório Jobim Carlevaro Arquitetos e Celeiro Formus, inspirado nas olarias do Estado e ambientado com mobiliário do artesão Antônio Scarabelot. A Sala de Atos foi modernizada pelos profissionais do escritório Marchetti Bonetti +.

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Elementos pensados para quem vive o mercado

Além de novos ambientes, o projeto de humanização também promove a mudança de comportamento das pessoas que visitam o mercado. Segundo Abreu Jr, curador do Casa & Cia Encontros e Espaços, essa foi a linha condutora do grupo responsável pelas mudanças.

– Trabalhamos também por meio de intervenções, a fim de tornar o patrimônio ainda mais atrativo – explica Abreu.

Um exemplo disso é o mobiliário especial que ocupa vários pontos estratégicos na Ala Norte da edificação, como o Banco Mercado, pensado pela dupla de arquitetos Bernardo Bahia e Marina Blasi, que serve para descanso ou apenas para observar o fluxo do centro. Já Carlos Lopes, aproveitou as paredes livres do corredor para adaptar uma galeria fixa – estruturada num painel – onde são expostas cenas do passado e dos personagens que fazem parte da história do lugar. Joana Amin e Flávia Wendhausen desenharam um guichê de apoio, próximo ao sanitários.

Na ala Sul, Evandro Gaspar resgata suas memórias de infância em dois painéis que exploram a arte naïf, assinados pelo artista plástico Jair Martins. Do lado de fora, temperinhos e árvores frutíferas envolvem o prédio, projeto da arquiteta Juliana Castro e da engenheira Clarice Wolowski. Quando a noite cai a beleza das torres da fachada é evidenciada com a iluminação criada pela arquiteta Marina Makowiecky. O prédio iluminado parece emergir entre as edificações que o cercam, fixando-se na memória coletiva dos moradores da cidade.

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O artesanato é o destaque no Centro de Atendimento ao Turista, as rendeiras ganharam um espaço para expor seus trabalhos e o arquiteto Carlos Lopes criou uma galeria fixa no corredor da Ala Norte

O artesanato é o destaque no Centro de Atendimento ao Turista, as rendeiras ganharam um espaço para expor seus trabalhos (acima) e o arquiteto Carlos Lopes criou uma galeria fixa no corredor da Ala Norte

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