Fast is Finished*

Foto: Eleone Prestes
Foto: Eleone Prestes

*Esse statement, que move o que chamamos de consumo consciente e traz estórias de experiências em companhia real e não virtual, é o mood atual do zeitgeist, que pode ser traduzido por “a velocidade acabou”. O assunto foi tema de uma palestra na Area 51, em parceria com a Postal INC, em Porto Alegre. Se você perdeu aquela oportunidade, acompanhe os insights aqui

O homem não foi programado para ser veloz. Quando inventamos a roda, ou melhor, seu asse, há mais de 4 mil anos, não foi para nos transportarmos mais velozmente e sim, para solucionarmos a falta de forças para puxarmos o arado com animais. Inventamos as demais máquinas depois pois somos, de fato, um tanto preguiçosos! Tecnicamente, somos o ser mais lento da natureza… uma formiga, em comparação com nosso corpo, é muito mais veloz, carregando proporcionalmente muito mais peso!

Mas, onde nasce esta nossa vontade de sermos velozes em tudo _ uma geração multitasking com status online sempre at work _ visto que desde os gregos até o início do Renascimento italiano, nunca pensaram nisso? Aristóteles dizia nos seus escritos que a tecnologia existente ao seu tempo era já suficiente para melhorar a qualidade da vida quotidiana e exortava as pessoas a dedicarem-se ao progresso do espírito. E assim obedecemos até o final do Medievo, onde levamos ao máximo nível a filosofia, a dramaturgia, a poesia, a música e tantas artes. Em um ostracismo total por tudo aquilo que hoje poderíamos considerar tecnologia e então, velocidade.

O mito da velocidade veio forte a partir do Renascimento, desembocando no Iluminismo e um dos “culpados” foi sem dúvida Francis Bacon que, com o seu livro Novum Organum inclusive recusou o ensino de Aristóteles afirmando que “tudo que se podia descobrir para o espírito tinha sido descoberto, agora era hora de pensar em melhorar a vida prática do homem”. A frase foi seguida ao pé da letra pelos participantes da Revolução Industrial inglesa e que depois inspiraram Ford e Taylor no início do século passado, lembram? Eles criaram a hoje famigerada mas à época útil fórmula de eficiência, junto da cadeia de montagem, aquela ironizada por Chaplin no seu Tempos Modernos.

Foto: Fah Maioli, Divulgação

Fotos Fah Maioli, Divulgação

Como a nossa mente tranquila reage a isso tudo, que é muito novo inclusive para o nosso código cultural e genético? Muitos psicanalistas afirmam que é o desejo de emularmos as máquinas velozes _ criadas por nós mesmos, à diferença do cérebro que é uma máquina lenta _ que pode ser uma das tantas causas de grande angústia e frustração contemporânea. Além disso, a prevalência do pensamento rápido, a partir daquilo que exprimimos por meio do uso dos instrumentos digitais, pode comportar soluções erradas, danos à educação, e ao fim, ao viver civil. Assim, de acordo com muitos filósofos, psicólogos, antropólogos da atualidade que estudam o nosso comportamento e com os quais temos tido contato, é unânime a opinião de que a redescoberta da lentidão pode ser uma boa terapia contra os efeitos do estresse digital, onde tudo vem comunicado em tempo recorde, por meio de e-mails, WhatsApp, SMS, Twitter, social network. Você também tem a sensação de que estamos sendo “bombardeados” por informações textuais, visuais e sonoras sem querer? Isso é o mundo fast! Para pensar, precisamos de tempo, com espaços vazios e silêncio, e, para criar, de ócio criativo, já dizia meu maestro Domenico de Masi.

Mas quem pode gozar do luxo da lentidão num mundo onde todos parecem fadados a correr de cá para lá em um baile contínuo? Quase ninguém. Porém, os mecanismos cerebrais que regulam os nossos comportamentos, no seu macro são uma máquina lenta, que tem necessidade de seus tempos e de uma sequência nas suas ações. Nós fazemos o contrário _ e nos orgulhamos por sermos multitasking, não é mesmo? _ e assim vivemos atualmente no que chamamos de “pesadelo da lentidão“, que associamos à perda de tempo e, pior, a algum típico defeito físico ou mental. Justamente por ter-se tornado uma mercadoria rara, a lentidão nos últimos anos tem batido às nossas portas de outras formas, em livros, movimentos artísticos, gastronomia, debates, encontros e até em resultados da bolsa de valores, como uma forma de “aviso”. Quem abrir esta brecha poderá viver mais e melhor, e de quebra, tornar-se parte de um movimento mundial que está mudando paradigmas seculares…

Na Itália, em 13 de maio, comemoramos o dia da lentezza (lentidão) e é muito ativa a associação Vivere con lentezza que promove este lifestyle em contraposição aos ritmos frenéticos da nossa agenda quotidiana. Foi criado por um alto executivo italiano, Bruno Contigiani, um personagem singular: estudou em um dos templos da velocidade em versão acadêmica (a prestigiosa Universidade Bocconi), trabalhou em empresas onde a lentidão não era prevista (da IBM à Telecom) e, bem cansado dessa pressa sem fim, virou o jogo e resolveu como nova missão de vida difundir o prazer do “tempo perdido”.

Assim como a associação, há um mundo hoje dedicado ao movimento da lentidão, que vai da moda ao design, passando, claro, pela gastronomia e, quem diria, pelo esporte! Temos nas academias europeias o sucesso do slow fitness: um novo modo de atividade onde corpo e mente trabalham juntos para o bem-estar, num mix de pilates, ioga e stretching. Na leitura, Diana la Counte, criou um clube de leitura virtual lenta, o slow reading, na Califórnia, que discute a sua atividade via Facebook e já tem hoje milhares de seguidores. Um dos resultados, segundo ela, é o de estimular a empatia. Mas, sobretudo, o de reduzir o estresse.

Foto: Fah Maioli, Divulgação

Na gastronomia, conhecemos no Brasil o Slow Food, de nosso amado piemontês Carlin, o Carlo Petrini. Em 1986, ele fundou a Associação Gastronômica ArciGola e três anos depois, em Paris, lançou o Slow Food, movimento internacional que nasceu objetivamente como resistência ao fast food. Falando nisso, vimos este ano as notícias de que o grande colosso do Big Mac tem perdido milhões de consumidores pelo mundo, assim como seu faturamento, justamente por manter o conceito de velocidade na alimentação, aliado a lanches de qualidade nutricional duvidosa, como afirmou Jamie Oliver em processo polêmico e Morgan Spurlock em seu filme Super Size Me, de 2004.

Na moda, em busca de um ritmo mais natural e menos consumista, os sinais aumentam, como estamos observando nas novas estratégias de H&M, Zara e das grandes players francesas e italianas, com Hermes na proa. No Design, então, nem se fala: há mais de quatro fuorisalone: o conceito de base são os makers, materiais sustentáveis e reaproveitamento de matéria-prima e objetos, em uma tríade que sustenta o movimento de busca de lentidão neste setor.

E, enfim, para saber pessoalmente se você pertence ao movimento slow ou fast, pense na refeição que você acabou de fazer: foi por prazer ou por necessidade? A última roupa que comprou, foi porque estava na promoção e era “baratinha” ou porque você realmente precisava daquela peça específica? Resumidamente, tudo aquilo que você compra por impulso ou por manipulação publicitária pertence ao mundo fast, e tudo aquilo que preenche com prazer, interessa aos teus sentidos e, de quebra, faz bem ao mundo, social ou ecologicamente, faz parte do movimento slow.

Sobre Area51: Ambiente multicultural que reúne iniciativas ligadas a educação, empreendedorismo, entretenimento e tecnologia.

Sobre Postal Inc: Empresa de pesquisa e análise do comportamento do consumidor, que tem como objetivo orientar marcas e empresas no desenvolvimento, lançamento ou reposicionamento de produtos e serviços. Trabalha com pesquisa qualitativa, buscando um novo olhar e compreensão sobre a sociedade e os grupos urbanos, identificando tendências socioculturais e comportamentais, usando a etnografia como metodologia.

Para saber mais
Associação: Vivere con lentezza (vivereconlentezza.it)
Site: slowfood.it
Livro: Elogio da Lentidão, de Lamberto Maffei, ex-diretor do Istituto de Neuroscienza (Consiglio Nazionale delle Ricerche _ CNR)
Blog: trashisfortossers.com
Música: welovegreen.fr
Livro: O Ócio Criativo, de Domenico De Masi
Livro: Andar a pé. Filosofia do caminhar, de Frédéric Gros, professor de Filosofia na Universidade de Paris XII

Foto: Eleone Prestes

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Foto: Omar Freitas

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