Os desafios pós Zaha: o futuro de seu escritório após sua morte repentina

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Steven Erlanger
The New York Times

Flores brancas enchem a galeria de design junto a retratos comemorativos colocados em meio a móveis ondulados de poliuretano polido e mármore. Um livro de condolências repousa sobre um suporte como uma construção de memórias. Nos escritórios principais, cerca de 400 funcionários continuam trabalhando, pressionados pelos prazos.

As pessoas trabalham em silêncio, ainda em choque. A mulher que os trouxe aqui, a notável arquiteta Zaha Hadid, nascida em Bagdá e famosa em todo o mundo, morreu subitamente em 31 de março em Miami, aos 65 anos.

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A tristeza é imensa; a estrela se foi. Em uma cultura movida pelas celebridades, o que acontece com uma corporação construída em torno de uma estrela, mesmo que em um trabalho essencialmente colaborativo como a arquitetura?

Na empresa de Zaha Hadid, está nas mãos de Patrik Schumacher, o atencioso alemão que trabalhou com ela por 28 anos e era seu sócio sênior, recolher os pedaços: manter o pessoal junto, o fluxo de trabalho constante e os clientes felizes. Em uma entrevista recente, ele afirmou que a firma iria continuar com os projetos existentes, incluindo um estádio para a Copa do Mundo de 2022 no Catar; uma torre em Nova York; uma ponte em Taipei, em Taiwan; e o parlamento do Iraque.

Mais do que nunca, ele precisa ir adiante para dar ao escritório, o Zaha Hadid Architects, uma nova identidade enquanto honra e mantém o sinuoso legado de Zaha.

– É difícil –, afirmou Schumacher, descrevendo a perda da feroz e sincera Zaha.  –Mas qualquer estrela da arquitetura nasce da própria disciplina e emerge por meio de escolas, competições e colegas.”

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Falando no prédio vitoriano que já foi uma escola no distrito Clerkenwell, em Londres, onde ela fundou o escritório em 1979, Schumacher afirma: “Queremos mostrar ao mundo que ainda somos um endereço viável e vibrante para grandes trabalhos de importância cultural”.

Schumacher, de 54 anos, foi o arquiteto que projetou o primeiro prédio importante de Zaha Hadid, a extraordinária estação de bombeiros angular, concluída em 1993, para a Vitra, empresa de móveis em Weil am Rheim, na Alemanha.

– Tivemos problemas com o design –, contou ele:

– O prédio a colocou no mapa, e Philip Johnson, o reconhecido arquiteto americano e um de seus defensores, compareceu à inauguração.

Schumacher tem sido o coautor de quase todos os desenhos famosos de Zaha Hadid, e também possui uma reputação importante como professor, palestrante e autor. É um teórico do que chamou de “parametricismo”, que define como sucessor do pós-modernismo: moldar a arquitetura com algoritmos, design assistido por computadores e novos materiais.

Mas o escritório vai precisar de mais, disse ele.

– Minha ambição é me tornar mais visível como um líder do setor para os clientes – explicou, enquanto continua a tocar programas de pesquisa internos “para seguir em frente”.

Schumacher estava usando uma camiseta branca e uma jaqueta esporte de neoprene que ele mesmo desenhou, uma indicação de quanto ele e o escritório veem a arquitetura como “uma linguagem de comunicação entre os espaços, envolvendo móveis e mesmo roupas, afirmou, e não apenas abrigos físicos bem torneados.

Os clientes têm sido amigáveis, compreensivos e encorajadores desde a morte de Zaha Hadid, contou Schumacher, e o escritório tem anos de trabalho a frente, com 36 projetos que já estão em construção ou possuem contratos de projeto.

A empresa, que acabou de abrir um escritório em Nova York, quer continuar a fazer “projetos importantes em cidades-chave”, enquanto mantém sedes aqui, em Pequim e em Hong Kong e planeja abrir novas frentes em Dubai e na Cidade do México, contou Schumacher.

A Zaha Hadid Architects também espera se aprofundar cada vez mais no ramo da aviação, depois de fechar um contrato para um novo aeroporto em Pequim. O histórico de escritórios que sobrevivem à morte de seus arquitetos principais é variado. São conhecidas as marcas que morreram com eles: Le Corbusier, Oscar Niemeyer, Eero Saarinen, Mies van der Rohe.

Perguntado se existem exemplos de empresas que prosperaram depois da morte de seus fundadores celebrados, Schumacher disse que era difícil tirar conclusões.

– Essa marca das estrelas é um fenômeno relativamente novo – contou, afirmando que os principais exemplos de arquitetos-celebridades ainda estão por aí, apesar de mais velhos, como Frank Gehry, Rem Koolhaas, Renzo Piano e Norman Foster. Schumacher mencionou Enric Miralles, famosos arquiteto espanhol que desenhou o prédio do parlamento escocês e morreu em 2000, aos 45 anos, mas cuja firma ainda está fazendo um bom trabalho. O escritório de Michael Graves, que morreu no ano passado, também continua a tocar os projetos dele.

Depois do choque da morte repentina de Zaha Hadid, houve uma semana de luto, de acordo com as tradições muçulmanas, afirmou Schumacher. No livro de condolências, as pessoas abriram seus corações. “Zaha, você mudou nossas vidas, nossa indústria e o mundo”, escreveu uma pessoa. “Vamos sentir falta de você.” Outra anotou: “Querida Zaha, obrigada por nos mostrar o futuro”.

Norman Foster, amigo próximo, escreveu em seu site: “O triunfo de Zaha foi ir além das belas visões gráficas de sua abordagem escultural da arquitetura” e transformá-las em realidade “que tanto chateou alguns de seus críticos. Ela era um indivíduo de grande coragem, convicção e tenacidade. É raro encontrar essas qualidades ligadas a um espírito livre e criativo“.

Mouzhan Majidi reconhece que a empresa tem muito em jogo, e ele também. Ele se tornou executivo chefe da empresa de Zaha há apenas um ano e meio, depois de 27 anos com Foster e seu escritório, o Foster&Partners, os últimos sete nessa mesma função. Nascido em Teerã, Majidi, hoje com 51 anos, veio para a Inglaterra com seus pais, em 1976, com 12 anos e se tornou um arquiteto reconhecido.

O que tem ajudado a equipe desde a morte de Zaha Hadid é quantidade de trabalho, contou. “Ela nos deixou na hora mais movimentada”, afirmou Majidi, dizendo que há “um nível alto de determinação na empresa” para ver os projetos concluídos:

– Temos confiança de que conseguiremos levar adiante e seguir com a visão dela, com seu legado e com as pesquisa experimentais estabelecidas no escritório.

Todos ali passaram “pela escola de Zaha”, afirmou. Mas à medida que você examina seu legado, disse ele:

– Não é o arquiteto principal que impõe: ‘Vá e faça assim’. É coletivo, é uma equipe.

Ainda assim, admitiu, ela deixou um buraco enorme:

– Temos que provar nosso valor. Provar que podemos ir em frente e ter nosso próprio futuro.

Fotos Marcelo Donadussi, Divulgação

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