Florença: tecnologia contra as pichações

Fotos Alessandro Grassani, The New York Times
Fotos Alessandro Grassani, The New York Times

Gaia Pianigiani
The New York Times

Não escreva nas paredes, afirma a mensagem da catedral renascentista na praça central de Florença, na Itália. Infelizmente, a instrução com caneta preta não passa da pichação de um visitante que decidiu ridicularizar a placa. Em toda a igreja, por décadas turistas picharam as paredes do monumento com declarações de amor eterno, slogans políticos, comentários espontâneos, frustrações e outros dizeres.

Há muitos anos, as autoridades de Florença desencorajam os visitantes a utilizar as velhas paredes de pedra da cidade como cápsula do tempo de bobagens. Mas, ao que tudo indica, a necessidade de pichar é um instinto difícil de controlar.

Por isso, buscaram uma solução digital para esse antigo problema, a começar pela torre do sino de Giotto, a Campanile. Depois de limpar todas as paredes da escadaria de 414 degraus no início deste ano, as autoridades incluíram três tablets na escada na expectativa de que os visitantes deixem uma marca virtual, sem danificar o monumento. As mensagens serão armazenadas em um site e arquivadas na internet por toda a eternidade.

– Precisávamos de algo para impedir as pichações e esperamos que o aplicativo ajude – afirmou Alice Filipponi, estrategista de mídias sociais da Opera di Santa Maria del Fiore, que cuida do complexo do Duomo de Florença.

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Beatrice Agostini, arquiteta da instituição e gestora de manutenção do local, precisou de três meses e de uma equipe de nove especialistas em restauração para limpar as paredes da torre utilizando solventes em gel e laser. Ela e a equipe não desejam passar por isso novamente, especialmente porque diversas partes da catedral ainda precisam ser limpas:

– Queremos que as pessoas entendam que causam um dano real ao monumento. Remover as escritas é um problema. No mármore, é quase impossível. São manchas que ficam para sempre no material.

Parece que a aposta compensou na torre do sino. Nos primeiros três dias do experimento, os mais de três mil visitantes deixaram 304 mensagens digitais – e a parede permaneceu intocada. Com a pichação virtual, os visitantes podem escolher o plano de fundo: madeira ou mármore, metal ou gesso – a exemplo dos encontrados no monumento. Também informam seus endereços de e-mail para que, assim que as mensagens sejam aprovadas, eles sejam avisados.

Nos próximos anos, as mensagens serão impressas e incluídas no arquivo da Opera di Santa Maria del Fiore, com documentos que datam de 1296.

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Em Florença, a batalha para proteger os monumentos de pichadores e vândalos já dura décadas, mas tem piorado. Em 2015, a catedral foi equipada com um sistema de alarmes e uma câmera de vigilância depois que uma nova pichação começou a aparecer a cada manhã.

– O fato de o monumento estar limpo também ajuda. Ninguém tem coragem de ser o primeiro – afirmou Laura Bachmann, alemã que estava visitando Florença com uma amiga.

Para os especialistas, a limpeza é a principal ferramenta de proteção.

– Os vândalos fazem esse tipo de coisa para que todo mundo possa ver sua marca. Infelizmente, eu acredito que nenhum tablet será capaz de evitar a reincidência – afirmou Andrea Amato, presidente da Associação Nacional Antipichação da Itália.

– As câmeras não impedem pichações. Entretanto, é importante que não deixemos nossos monumentos abandonados à degradação, mesmo correndo novos riscos – completou.

 

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Fotos Marcelo Donadussi, Divulgação

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